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Obras da Patrística

Literatura Patrística – III

Otto Maria Carpeaux

O grande Papa aparece nos quadros medievais como simples monge, e isso lhe teria agradado; estimava a simplicidade do coração mais do que os talentos do espírito. Não fez nada para salvar os tesouros ameaçados da civilização clássica; ao contrário, tudo fez para substituir a leitura dos autores pagãos pelos escritores hagiográficos e edificantes, literatura para a qual ele contribuiu com o Liber anglorum, vidas de santos itálicos, cheias de milagres incríveis, aparições de almas do outro mundo, castigos estranhos infligidos por Deus aos infiéis. É um monge supersticioso, um daqueles a quem ele prescreveu, no Liber regulae pastoralis, as normas de conduta e ação. Chamam-lhe «simplista», «inimigo do humanismo». Mas que valor poderiam ter as disciplinas humanistas para um homem cheio de angústias apocalípticas, que espera o fim do mundo? Essa expectativa impunha disciplina diferente; mas uma disciplina. As ansiedades apocalípticas não transformaram o Papa em quietista angustiado e passivo, e sim em homem de uma atividade enorme, que abrangeu, desde a Itália e a Espanha até a Inglaterra, o mundo inteiro conhecido. Era preciso salvar as almas, antes do cataclismo. E Gregório construiu um abrigo materno para as almas, a Igreja medieval, trabalhando como um monge de São Bento e governando como um «consul Dei». Era um espírito sóbrio, seco, prático; um romano. Estabilizou o mundo lírico dos hinólogos, construindo-lhe uma catedral invisível. A expressão literária dessa atividade realista e daquele espírito lírico conjugados está na liturgia que tem o nome do papa, embora ela tivesse origens mais remotas, e séculos posteriores, até o século XII, houvessem acrescentado muito à «liturgia gregoriana».

Foi William Robertson, historiógrafo inglês do século XVIII, quem criou a expressão «Dark Ages», ou «séculos obscuros», para qualificar a época em que a «Razão» e as «boas letras clássicas» não iluminaram o mundo. A expressão mudou várias vezes de sentido, estendendo-se à Idade Média inteira, ou aos séculos IX, X e XI, entre a queda do Império carolíngio e as Cruzadas, ou então aos séculos VI, VII e VIII. Do ponto de vista da história literária, este último sentido da expressão é o mais razoável. A literatura romana acabara e as literaturas modernas ainda não tinham começado, nem em língua latina nem nas línguas nacionais. O vazio explica-se pela destruição geral, a perda de quase todos os bens materiais, inclusive os benefícios de uma administração organizada. Contudo, a relação entre o estado econômico-político e a situação cultural não pode ser formulada à maneira de uma equação algébrica. Antes dos «séculos obscuros» e depois, as maiores devastações materiais não impediram o cultivo das letras, e a hinografia ambrosiana e pós-ambrosiana, literatura original e poderosa, constitui um primeiro desmentido àquele inglês incompreensivo. Outro desmentido, mais forte ainda, revela-se no estudo da liturgia romana. É ela, sem dúvida, uma obra literária, embora de um tipo diferente da literatura pagã e da literatura medieval; constitui uma literatura sui generis, não comparável a nenhuma outra, de modo que nem os critérios classicistas nem os critérios «modernos» a ela se aplicam bem. A mais geral e mais rigorosa das normas historiográficas segundo os cânones e critérios da própria época a que pertencem. Vista assim, a liturgia é alguma coisa mais do que um cerimonial eclesiástico; revela-se como obra literária, cujo valor, se bem que relacionado intimamente com o credo que exprime, não pode depender das convicções religiosas da critica ou do crítico. A apreciação literária da liturgia exige, certamente, uma «suspension of disbelief» da parte do descrente; mas a leitura compreensiva,de Dante e Milton exige o mesmo de todos os que não são católicos florentinos ou puritanos ingleses. Após a «suspensão da descrença», ninguém negará à liturgia o caráter de grande obra literária que marca os séculos VI e VII, iluminando-lhes a «obscuridade».

A liturgia romana compõe-se de certo número de pequenos textos religiosos, reunidos conforme a atuação do sacerdote no altar. Alguns desses textos são iguais, permanentes, em todas as missas, particularmente o Cânon, que inclui o sacrifício e a transubstanciação; outros mudam conforme os domingos e a sua posição nas fases do ano eclesiástico; mais outros, segundo os dias dos santos cujo martírio ou translação se comemora. A origem romana da liturgia em vigor explica, nestes últimos casos, certa preferência dada aos santos locais da cidade de Roma, de modo que a ordem dos serviços religiosos nas igrejas romanas («igrejas de estação») influiu na composição da liturgia e do ano eclesiástico. Não é possível verificar com certeza quando, onde e por que todos aqueles textos foram redigidos e depois reunidos em ordem definitiva; as origens da liturgia assemelham-se à maneira como a filologia do século XIX imaginava a criação das «epopéias populares», do Poema del Cid ou do Nibelungenlied, de autoria coletiva. O verdadeiro autor da liturgia é a Igreja.

Havia várias Igrejas e várias liturgias. Só no Oriente existem ou existiam dois grupos inteiros de liturgias, do tipo antioqueno e do tipo alexandrino, redigidas em gredo ou em línguas asiáticas, e uma delas foi a primeira liturgia romana, hoje desaparecida. No Ocidente se introduziram variantes da forma oriental: a liturgia ambrosiana, na Igreja de Milão; a liturgia moçárabe ou gótica, na Espanha, a liturgia céltica, nas ilhas britânicas; e, particularmente na França, a liturgia galicana, que influiu muito na formação definitiva da liturgia romana, para ceder, enfim, a esta, que suplantou, no Ocidente, todas as outras. A liturgia romana é um compromisso entre as liturgias orientais e ocidentais, e um compromisso extraordinariamente feliz.

A história da liturgia romana encontra-se no Liber pontificalis, a crônica dos primeiros papas, na correspondência papal e nos martiriológios romanos. As missas dos séculos V e VIII subsistem em três velhas coleções: o Sacramentarium Leonianum, o Sacramentarium Gelasianum e o, Sacramentarium Gregorianum. Com a interpolação de elementos galicanos no Sacramentarium Gregorianum, na época e a pedido de Carlos Magno, terminou a evolução; na Idade Média fizeram-se apenas modificações sem importância.

O «Intraibo ad altare Dei», pórtico da missa, compõe-se de versículos bíblicos e da reza pela absolvição dos pecados; logo a linguagem da Vulgata («Judica me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta») revela a sua qualidade litúrgica. O início da missa liga-se ao «Confiteor» por uma daquelas fórmulas que sempre voltam, lembrando menos um refrão do que as fórmulas feitas da epopéia homérica:

«Gloria Patri et Filio et Spiritui Sancto, sicut erat in principio et nunc et semper, in saecula saeculorum. Amen.»

É o «tema» da missa. Após o «Introitus», que alude à festa do dia, Deus é aclamado em palavras gregas que formam uma espécie de tríptico:

«Kyrie, eleison. Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.

Christe, eleison. Christe, eleison. Christe, eleison.

Kyrie, eleison. Kyrie, eleison. Kyrie, eleison.»

Trata-se, com efeito, de uma «aclamação», como a receberam os imperadores de Bizâncio no momento de sentarem-se no trono. Várias orações cercam a leitura solene da Epístola e do Evangelho, herança do serviço religioso na sinagoga, e entre elas incluiu-se o «Gloria in excelsis Deo…», como que abrindo o céu sobre o altar. A transição para o serviço.de sacrifício é feita por uma das partrs mais antigas da missa, o ato de mistura de vinho e água, simbolizando a união dos fiéis com Cristo:

«Deus, qui humanae substantiae dígnitatem mirabiliter condidisti, et mirabilius reformaste»,

palavras nas quais a dignidade austera da língua latina se humilha no coletivismo dos «divinitatis consortes». Sobrevivem, na liturgia romana, apenas algumas palavras das epikleseis, das invocações do Espírito Santo, que nas liturgias gregas quase sufocam, pela sua grande extensão, o Cânon; a liturgia ocidental é de sobriedade romana. Quando, e isso acontece só uma vez, cede à pompa oriental, na Praefatio. com o seu júbilo dos exércitos celestes, dos «Angeli, Dominationes, Potestates, Seraphim», seguem-se, então, imediatamente, as palavras secas, de maior economia estilística, do Cânon, que é a parte genuinamente romana da missa latina, romana no sentido local: no momento em que o Cânon é recitado, qualquer altar católico, em qualquer parte do mundo, está idealmente em Roma. No «Communicantes et memoriam venerantes», a comemoração dos santos, mencionam-se, além da Virgem e dos Apóstolos, somente Lino, Cleto, Clemente, Xisto e Cornélio, entre os primeiros sucessores de São Pedro no bispado romano; depois, o africano Cipriano e os mártires Cosme e Damião. Estamos em uma basílica dos primeiros séculos, perto das catacumbas. E em outra oração muito antiga, no «Hanc igitur oblationem», inseriu Gregório Magno as palavras «diesque nostros in tua pace disponas», para lembrar a todos os séculos vindouros as atribulações da cidade de Roma no século VI, cercada pelos longobardos; palavras que são de uma atualidade permanente. Após a transubstanciação, que se distingue pelo mais alto grau de expressão religiosa — o silêncio — pede-se a Cristo o «locum refrigerii, lucis et pacis» para os «qui nos praecesserunt cum signo fideiet dormiunt in somno pacis», e, já fora do Cânon, a graça para os que há pouco aclamaram o Kyrios e agora, em outro «tríptico», se curvam perante o Deus sacrificado:

«Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: miserere nobis. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: miserere nobis. Agnus Dei, qui tollis peccata mundi: dona nobis pacem.»

O ciclo está fechado. O fim é a melodia largamente desenvolvida com que a Igreja despede os «circunstantes» para voltarem à vida profana: «Ite, Missa est.»

A variedade das missas era, no começo, muito grande: cada dia tinha a sua missa especial, como acontece ainda nas semanas da quaresma, nas quais o mundo inteiro participa do culto nas «igrejas de estação» da Urbs. Mas a sobriedade romana fez tudo para suprimir as diversidades exuberantes. Distribuiu-se uma missa mais ou menos uniformizada pelas «estações do ano», constituindo o ano eclesiástico a repetição simbólica da epopéia da história sacra e redenção do gênero humano: Advento, Rorate coeli, Natal, Epiphania, Cinzas, Invocabit, Reminiscere, Oculi, Laetare Jerusalém, Iudica, Palmaram, Semana Santa, Páscoa, Quasimodogeniti, Pentecostes, os 24 domingos, desde a Trindade até à leitura da profecia apocalíptica, Finados; e, de novo, Advento.

Afirmar que a liturgia é uma grande obra de arte implica esteticismo suspeito. Assim como a língua latina, durante muitos séculos de sobrevivência, se adaptou a estados de alma inteiramente novos, assim também a liturgia latina teve significação diferente em todas as épocas. A sua interpretação como drama religioso tem fundamento apenas na relação purumente histórica entre as cerimônias eclesiásticas e o teatro medieval, e na pompa religiosa do Barroco, quando a música e as artes plásticas colaboraram para transformar a missa solene em «obra de arte total», no sentido de Wagner. Essa interpretação ajuda a sufocar a palavra; mas a palavra é a essência da liturgia. A liturgia é essencialmente uma composição literária, sem consideração de efeitos teatrais ou pictói ico-musicais. Talvez se entenda melhor o sentido da liturgia nas misans rezadas na alta madrugada, sem música, quando o sacerdote só murmuro as palavras, e o silêncio absoluto em torno do sacrifício é menos efetuoso e mais profundo. É preciso ler e entender o texto — não basta ouvi-lo — para «sentire cum Ecclesia». Então a permanência de certos textos e as modificações de outros durante o ciclo do ano rcvelam-se como traços característicos de um «ciclo» em sentido literário, de uma epopéia. A primeira e maior epopéia que o Ocidente criou. Como todas as grandes epopéias, a liturgia constitui um mundo completo — criação, nascimento, vida, morte e fim — dentro dos muros da igreja. Mundo fechado, cuja literatura é «exótica» num sentido diferente do da pagã: literatura de outro mundo.

Para designar o «fora», a Igreja Romana, tão zelosa do uso exclusivo da língua latina, admitiu uma expressão do latim vulgar: «fuori le mura»; várias igrejas em Roma chamam-se assim. A expressão lembra aqueles «diesque nostros in tua pace disponas» que foi inserto porque «fuori le mura» não havia aquela paz. A epopéia eclesiástica da liturgia decorreu só dentro dos muros. Lá fora, havia os bárbaros e a destruição.

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