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Obras da Patrística

Literatura Patrística – II

Otto Maria Carpeaux

O hinário da Igreja latina é a primeira obra da literatura moderna. Um espírito diferente do espírito da Antiguidade grego-romana cria formas independentes, cuja origem constitui um dos maiores problemas da historiografia literária.

Já desde o século II da era cristã, os poetas latinos caem com freqüência em erros prosódicos, enganando-se com respeito à quantidade das sílabas; mas sobre a quantidade das sílabas se baseia a métrica greco-romana. Perde-se a segurança, e a métrica procura novo apoio no acento da palavra falada. A liturgia cristã contribuiu para essa modificação essencial, pelo uso das antífonas com a sua prosódia diferente. Contudo, não está esclarecido se a verdadeira origem da nova métrica se encontra na evolução da língua latina ou na liturgia.

Segundo Gaston Paris, existiu sempre uma diferença de acentuação entre a língua culta, usada na poesia metrificada, e o sermo plebeius, que se impôs na época da decadência. São mais convincentes, porém, as analogias, reveladas por Wilhelm Meyer, entre a versificação dos hinos latinos e as versificações siríaca, caldaica e armênia. Parece que o cristianismo importou as leis da versificação semítica.

Mas essa versificação estrangeira não teria vencido se não fossem modificações lingüísticas que tinham motivos mais profundos do que a plebeização da língua latina. A nova estrutura do latim falado é sintoma de uma nova alma que o fala. Um autor anônimo, a alma coletiva, inventa uma nova poesia, os versos de 4 diâmetros jâmbicos, reunidos em estrofes de 4 linhas; primeiro exemplo da poesia «moderna».

Os hinos mais antigos da Igreja atribuem-se a Ambrósio». Em geral, esta tradição foi abandonada pela crítica. Do corpus dos hinos ambrosianos, certamente a maior parte não pertence ao grande bispo de Milão. São de origem incerta os hinos para as horas canônicas, conservados no Breviário Romano: «Iam lucis orto sidere», «Nunc sancte nobis Spiritus», «Rector potens, verax Deus», «Rerum Deus tenax vigor», «Lucis creator optime» e «Te lucis ante terminum»; também os hinos mais extensos, «Splendor paternae gloriae», «Conditor alme siderum» e «Jesu corona virginum»- não são autênticos. Enfim, é preciso privar Ambrósio da autoria do famoso cântico «Te Deum laudamus». Ficam quando muito, 4 hinos autênticos: «Aeterne rerum conditor», «Deus creator omnium», «Iam surgit hora tertia» e «Veni redemptor gentium»; revelam eles que o estoicismo — fonte, tantas vezes, de inspiração lírica — também acendeu no senador eclesiástico e ciceroniano seco a luz da poesia. Revela inspiração ambrosiana, embora indireta, o corpus inteiro dos hinos atribuídos outrora ao bispo; um dos símbolos mais freqüentes na autêntica poesia ambrosiana é o galo que, após a noite que pertence ao demônio, chama os fiéis para o ofício; e em um dos hinos não autênticos encontram-se os versos característicos:

«Procul recedant somnia
Et noctium phantasmata…»,

explicando o hino autêntico:

«…. gallus iacentes excitat
Et somnolentos increpat».

Como a aurora, cuja luz entra pelas vidraças da igreja, aparece nos hinos ambrosianos a luz de um novo dia, e com ele uma inovação estranhíssima, «moderna», totalmente desconhecida da Antiguidade: a rima.

O verdadeiro Ambrósio da poesia latina crista é o espanhol Prudêncio, o maior poeta da antiga Igreja Romana. Já foi comparado a Horácio, mas é mais sério, e a Píndaro, mas é mais humano. A grande epopéia alegórica da Psychomachia, a luta das virtudes contra as paixões, talvez interesse hoje menos do que as 14 odes do Peristephanon, em homenagem a 14 mártires espanhóis e africanos, espécie de epinícios cristãos.

Prudêncio, apesar das tentativas de poesia narrativa, é essencialmente um poeta lírico. Nas 12 odes do Cathemerinon, destinadas a certas horas do dia e a certas festas, encontra os acentos mais novos e mais universais, o

«…. mors haec reparatio vitae est»

para a hora das exéquias, e o

«…psallat altitudo caeli, psallite omnes angeli»

para ser cantado omni hora. Prudêncio é um dos raros poetas líricos que conseguiram criar um mundo completo de poesia.

A força desse classicismo eclesiástico revela-se na sua capacidade de sobreviver às piores tempestades. Mesmo na corte dos reis merovíngios, num ambiente de assassínio e incesto, um poeta habilíssimo para ocasiões oficiais sabe exprimir os mistérios do credo em símbolos poéticos de autêntica feição romana. Venâncio Fortunato sente o caminho do Cristo para a cruz como triunfo militar —

«Vexilla regis prodeunt, fulget crucis mysterium…» —

e a glória celeste da Virgem como apoteose de uma deusa —

«O gloriosa domina, Excelsa super sidera…»

A língua latina salvara o novo espírito poético.

O novo mundo lírico encontrou apoio real no trabalho monástico e na organização eclesiástica: dois elementos herdados da realidade romana. Sobrevive espírito romano na regra da ordem de São Bento, na convivência de duro trabalho manual e estudo das letras clássicas; e em relação íntima com o espírito beneditino criou-se o grande papa, que também já foi chamado «o último romano» e que é o fundador da Igreja medieval: Gregório Magno.

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