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Obras da Patrística

Ditoso quem se partir/ para ti, terra excelente

Umberto Fasola

Os cristãos, como dizia-se, viviam como as demais pessoas. Há um ponto evidente, porém, que os diferencia dos outros, a concepção da morte e da vida além da morte. Desde o final do século II, foi justamente a concepção da morte e do além que os levou a distinguir-se decididamente dos usos pagãos que, até então, também os cristãos tinham seguido. Os cristãos aceitavam em tudo a vida dos pagãos, exerciam o próprio dever de soldados, de comerciantes, de escravos. Diante do conceito da morte sentiram-se, porém, muito diferentes. Até o final do século II, os cristãos não se tinham colocado o problema de serem sepultados em áreas comuns ao lado dos pagãos. O próprio São Pedro, como se sabe, foi sepultado poucos metros longe de sepulturas pagãs, como também São Paulo na via Ostiense. A partir do final do século II, porém, os cristãos quiseram distinguir-se nas práticas funerárias e separaram seus cemitérios daqueles dos pagãos. Por que?

O conceito pagão de morte era frio, desesperado: o pagão sabia que existia a sobrevivência e acreditava nela, mas para ele era uma sobrevivência sem sentido. De fato, para o paganismo, a alma sobrevivia nos Campos Elíseos ou em outros ambientes ultra terrenos, mas somente enquanto fosse lembrada. Tão logo o defunto fosse esquecido, teria sido absorvido na massa amorfa, sem sentido, privado de personalidade, semelhante aos Manes. E, por isso, como pode-se observar facilmente, os túmulos pagãos são construídos ao longo das vias consulares. Foram deixados alinhados por quilômetros ao longo dessas estradas (particularmente da via Appia) em grande evidência, justamente porque os titulares queriam ser recordados: sabiam que enquanto alguém os via, lia os seus nomes, pensava neles, via a sua estátua, eles sobreviveriam.

Acabada a lembrança, tudo estava acabado. É por isso que faziam testamentos custosos, muito ricos, para obrigar os pósteros à recordação. Temos textos conservados nas epígrafes em que se recorda que os proprietários das sepulturas deixaram grandes cifras aos libertos para que todos os anos, no aniversário, fossem acender uma lâmpada sobre seus túmulos, atraindo a atenção dos vivos; basta recordar a tumba de Cecília Metella na via Appia.

Para os cristãos, isso tudo não tinha sentido: eles acreditavam seriamente na outra vida, não de modo tão desesperado e frio. É por isso que desejavam criar áreas cemiteriais próprias e separadas. Construíram então os Koimeteria, termo que significa literalmente dormitórios. Essa palavra para os pagãos era totalmente incompreensível. Eles, de fato, não entendiam de forma alguma o termo aplicado às áreas funerárias. Por exemplo, no edito de confisco do imperador Valeriano em 257, que é trazido por Eusébio de Cesaréia, diz-se que são confiscados aos cristãos bens e lugares de reunião (em Trastévere, bairro de Roma, foram evidentemente confiscados os “títulos” de Calisto, Crisógono e Cecília) que pertenciam à comunidade. Além desses bens, foram também confiscados os assim chamados Koimeteria, dormitórios.

Os romanos não entendiam o que isso significava. Para um pagão, de fato, “dormitório” era a sala onde se deita à noite e se levanta pela manhã. Para o cristão, era uma palavra que indicava tudo: vai-se dormir para ser despertado, a morte não é o fim, mas o lugar onde se repousa; e há um despertar garantido.

Encontramos outros conceitos com que os cristãos pensavam na morte e encontramo-los nas catacumbas: por exemplo conceito de Depositio. As lápides com a palavra Depositus, às vezes abreviada (depo, Dep ou apenas D) qualificam-se logo como cristãs. De fato, Depositio é um termo jurídico, usado pelos advogados, que queria dizer “dá-se em depósito”: os mortos eram confiados à terra como grãos de trigo, para serem depois restituídos em suas messes futuras. É um conceito desconhecido aos pagãos.

Por todos esses motivos, por uma teologia de morte tão diferente da dos pagãos, os cristãos quiseram isolar-se e criar seus próprios cemitérios. O mesmo foi sentido pelos judeus, mas só depois.

As escavações da Vila Torlônia demostraram com segurança que as catacumbas judaicas foram criadas ao menos 50-60 anos depois das cristãs. Foram os judeus que imitaram os cristãos nesse tipo de sepultura.

A concepção cristã de morte, ou melhor, o mundo dos mortos sentidos como vivos, faz-nos entrar na mentalidade dos primeiros cristãos, dos moradores do Trastévere de então: externamente eram oleiros, trituradores de trigo, serventes de hospedarias, vendedores de peixe, barqueiros, etc., como todos os demais (sabemos, ainda, que eram estimados pelos seus concidadãos como gente que sabia executar bem os seus deveres). No íntimo de suas consciências, porém, tinham algo de profundamente diverso dos outros.

Foi encontrada no Cemitério Maior da vida Nomentana, uma bela epígrafe cristã. Externamente, é um pequeno pedaço de mármore que não apresenta características particulares, mas pelos conceitos que exprime tenho-a como um dos achados mais belos. Fala-se nela de um siciliano morto em Roma, que desejou recordar a sua concepção de vida, com estas brevíssimas palavras em grego: “Vivi como sob uma tenda (isto é, vivi provisoriamente) por quarenta anos, agora habito a eternidade”.

Vemos aqui toda a diferença na concepção de vida entre os cristãos e os pagãos. Para os primeiros tratava-se de entender o presente como uma vida provisória para ir em direção à verdadeira habitação, a verdadeira morada; para os pagãos, a vida tinha um sentido fechado: a morte, de fato, era o seu fim. O momento trágico da morte, tornava-se para os cristãos, o ingresso num ambiente alegre. Jesus compara-o à festa de núpcias. É por isso que os cristãos pintam em seus túmulos rosas, pássaros, borboletas: encontra-se, com freqüência, nas decorações das catacumbas pinturas desse ambiente alegre, sereno, com símbolos que exprimem serenidade e tranqüilidade.

Fonte

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