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Obras da Patrística

Santo Agostinho

Etienne Gilson


Depois de haver terminado seus primeiros estudos em Tagasta, sua cidade natal (hoje Suk-Ahras, a cerca de cem qui­lômetros de Annaba), Agostinho foi a Madauro, depois a Cartago, para estudar Letras e retórica, que mais tarde ensinaria. Sua mãe, Mônica, inculcara-lhe desde cedo o amor a Cristo, mas ele não era batizado, conhecia mal as doutrinas cristãs e as desordens de uma juventude conturbada não o haviam levado a se instruir melhor. Em 373, no meio dos prazeres de Cartago, leu um diálogo de Cícero hoje perdido, o Hortênsias. Essa leitura inflamou-o com um vivo amor pela sabedoria. Ora, nesse mesmo ano, ele conheceu uns maniqueístas, que se gabavam de ensinar uma explicação puramente racional do mundo, de justificar a existência do mal e de conduzir finalmente seus discípulos à fé unicamente por meio da razão. Agostinho acreditou por algum tempo que era essa a sabedoria que ele cobiçava. Foi, portanto, como maniqueísta e inimigo do cristianismo que voltou para ensinar Letras em Tagasta e que retornou em seguida a Cartago, onde compôs seu primeiro tratado, hoje perdido, De pulchro et apto. Entrementes, suas convicções maniqueístas haviam sido abaladas. As explicações racionais que não cessavam de lhe prometer ainda não haviam aparecido, e ele via bem que nunca apareceriam. Portanto, saiu da seita e foi para Roma, em 383, a fim de ensinar retórica. No ano seguinte, a intervenção do prefeito de Roma, Símaco, permitiu-lhe obter a cátedra municipal de Milão. Visitou o bispo da cidade, Ambrósio, cujas pregações seguiu, nelas descobrindo a existência do sentido espiritual escondido sob o sentido literal da Escritura. No entanto, sua alma permanecia disponível. Como bom discípulo de Cícero, ele professava então um “academismo” moderado, duvidando de quase tudo, mas sofrendo dessa falta de certezas. Foi então que leu alguns escritos neoplatônicos, notadamente uma parte das Enéadas de Plotino na tradução de Mário Vi­torino. Foi seu primeiro encontro com a metafísica, e um encontro decisivo. Liberto do materialismo de Mani, tratou de purificar seus costumes, como esclarecera seu pensamento; mas as paixões eram tenazes, e ele mesmo se es­pantava com sua impotência para vencê-las, quando leu, nas Epístolas de são Paulo, que o homem é presa do peca­do e que ninguém pode libertar-se dele sem a graça de Jesus Cristo. A verdade total que Agostinho procurava desde há tanto lhe era enfim oferecida; ele abraçou-a com alegria em setembro de 386, aos trinta e três anos de idade.

A evolução de santo Agostinho ainda não terminara. Mal instruído sobre a fé que abraçava, restava-lhe conhecê-la melhor e depois, por sua vez, ensiná-la. Isso devia ser a obra de toda a sua vida, mas, se nos ativermos às suas idéias filosóficas, poderemos dizer que Agostinho viverá do patrimônio neoplatônico acumulado no primeiro entusiasmo dos anos 385-386. Nunca o aumentará; utilizá-lo-á com cada vez menos boa vontade à medida que envelhecer; mas toda a sua técnica filosófica provirá dele. Uma diferença radical distingui-lo-á, porém, dos neoplatônicos, desde o mesmo dia da sua conversão. Os maniqueístas haviam-lhe prometido le­vá-lo à fé nas Escrituras pelo conhecimento racional; santo Agostinho propor-se-á, a partir de então, alcançar pela fé nas Escrituras a inteligência do que elas ensinam. Sem dúvida, um certo trabalho da razão deve preceder o assentimen­to às verdades de fé; muito embora estas não sejam demons­tráveis, pode-se demonstrar que convém crer nelas, e é a razão que se encarrega disso. Portanto, há uma intervenção da razão que precede a fé, mas há uma segunda, que a segue. Baseando-se na tradução, aliás incorreta, de um texto de Isaías pelos Setenta, Agostinho não se cansa de repetir: Nisi credideritis, non intelligetis. Há que aceitar pela fé as verdades que Deus revela, se se quiser adquirir em seguida alguma inteligência delas, que será a inteligência do conteúdo da fé acessível ao homem neste mundo. Um texto célebre do Sermão 43 resume essa dupla atividade da razão numa fórmula perfeita: compreende para crer, crê para compreender (intellige ut credas, crede ut intelligas). Santo Anselmo exprimirá mais tarde essa doutrina numa fórmula que não é de Agostinho, mas que expressa fielmente seu pensamento: a fé em busca da inteligência, fides quaerens intellectum.

Presente a seu pensamento desde o início de sua carreira de escritor cristão, essa tese inspira a longa seqüência das obras de Agostinho. De naturezas bastante diferentes, não há uma delas em que não encontremos alguma indicação sobre sua atitude filosófica; mas, como era natural, é nas primeiras que mais se aproxima de uma especulação filosófica pura. Da época em que ainda não era mais que catecúmeno, datam Contra Acadêmicos, De beata vita, De ordine (todas de 386), os Soliloquia e o De immortalitate animae (387), enfim De musica, iniciado em 387 e completado em 391. Entre a data de seu batismo (387) e a de sua ordenação sacerdotal (391), a história da filosofia reterá sobretudo De quantitate animae (387-388), De Genesi contra Manichaeos (388-390), De libero arbitrio (388-395) De magistro (389), De vera religione (389-391), De diversis quaestionibus (389-396). Uma vez padre, Agostinho consagra-se decididamente aos problemas teológicos e aos trabalhos de exegese, mas ainda cabe reter o De utilitate credendi (391-392), indispensável para o estudo do seu método; o De Genesi ad lideram liber imperfectus (393-394); o De doctrina Christiana (397), que dominará a história da cultura cristã na Idade Média; as Confissões (400), em que estão presentes todas as suas idéias filosóficas; o De Trinitate (400-416), não menos rico filosófica do que teologicamente; o De Genesi ad lideram, principal fonte para o estudo da sua cosmologia; o imenso De civitate Dei (413-426), particularmente importante para a sua teologia da história, mas a que sempre se deve recorrer, qualquer que seja o ponto estudado da sua doutrina; uma série de obras essencialmente religiosas, enfim, mais férteis em sugestões filosóficas de todas as sortes: as Enarrationes in Psalmos, que se estendem de 391 ao fim da carreira de Agostinho; In Joannis Evangelium (416-417), De anima et ejus origine (419-420), sem esquecer a imensa Correspondência, algumas cartas das quais são amplos tratados, e as Retratações (426-427), cujas correções por vezes lançam uma luz tão viva no sentido das fórmulas retratadas. Se acrescentarmos a isso que várias obras filosóficas de Agostinho se perderam, notadamente sua enciclopédia das artes liberais, e que se trata aqui apenas da parte menos exclusivamente teológica da sua obra, poderemos ter uma idéia da sua extensão e da necessidade que se impõe ao historiador de ater-se à exposição esquemática de seus temas principais.

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