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Obras da Patrística

São Gregório Nazianzeno

Etienne Gilson

Foi na escola de Cesaréia de Capadócia, fundada por Orígenes depois de sua fuga de Alexandria, que Gregório Nazianzeno, com freqüência chamado Gregório, o Teólogo (329-389), estudou inicialmente.

Ele prosseguiu seus estudos em Atenas, em companhia de um de seus condiscípulos de Cesaréia, que um dia seria são Basílio. Gregório parece inclusive ter prolongado bastante sua permanência em Atenas para aí ensinar, por sua vez, a eloqüência. Só recebeu o batismo em aproximadamente 367, quando de sua volta a Cesaréia. Ordenado padre, depois elevado ao episcopado, sem ter, ao que parece, ambicionado nem uma nem outra dignidade, permaneceu sempre um orador, um escritor, um poeta, inimigo das responsabilidades da vida pública, voltado para a vida interior, a ascese e a contemplação. Deve seu título honorífico – Gregório, o Teólogo -a um grupo de cinco sermões (XXVII-XXXI) dentre os quarenta e cinco que dele possuímos e que são designados pelo título distinto de Discursos teológicos (em 380). Contêm uma exposição do dogma da Trindade, que se tornou clássica na história da teologia cristã, e nos informam sobre a situação intelectual dos cristãos na época em que foram pronunciados.

Falando dos Padres da Igreja, pensamos principalmente no uso que fizeram da filosofia para definir o dogma e corremos o risco de esquecer seus adversários, que, na mesma época, esforçavam-se, ao contrário, por utilizar a fé cristã para alimentar com ela sua filosofia. A heresia de Ário parece ter nascido, em larga medida, desse desejo de trazer a religião para os limites da razão. Gregório Nazianzeno e Basílio encontraram-se em presença de uma atitude análoga à dos teístas do século XVII, isto é, de uma racionalização do dogma cristão espontaneamente efetuada por espíritos sensíveis ao valor explicativo da fé cristã, mas preocupados em reduzir o que ela continha de mistérios às normas do conhecimento metafísico. A preocupação de racionalidade que o arianismo atesta em toda parte contribuiu muito para seu imenso êxito, e não se deve esquecer que o objeto da luta que os Padres travaram contra ele era nada menos que a própria fé cristã. Tratava-se de saber se a metafísica absorveria o dogma ou se o dogma absorveria a metafísica. Gregório Nazianzeno, precisamente, encontrava diante de si um adversário de peso na pessoa do ariano Eunômio (falecido em cerca de 395). Para esse chefe de seita e seus discípulos, o mundo dependia de um Deus único, concebido como sendo essencial e supremamente essência, substância ou realidade (ousia). Absolutamente simples, essa essência divina exclui toda pluralidade de atributos. Tudo o que se pode dizer a seu respeito é que ela existe, absolutamente. Como na doutrina do próprio Ário, o Deus de Eunômio é, pois, antes de mais nada, caracterizado pela necessidade de ser que já definia a ousia de Platão. Portanto, será concebido antes de mais nada como “não tornado” ou “não gerado”, isto é, como desfrutando do privilégio único da “inascibili-dade”. Daí decorre naturalmente a conseqüência de que o Verbo, que é o Filho, sendo gerado, é inteiramente dessemelhante (anomoios) ao Pai e em nada consubstancial (homoousios) a ele. Como o demiurgo do Timeu, que fez deuses, e os fez eternos, o Deus de Eunômio pôde fazer do Filho um deus por adoção, associou-o de antemão à sua própria divindade e à sua própria glória, mas não pôde realizar a contradição de fazer que o gerado fosse consubstancial ao inascível. Reprova-se por vezes a Eunômio os “sofismas” que ele empregava para ajustar-se ao dogma. Talvez seja equivocar-se quanto a suas intenções. Eunômio não procurava delimitar o mistério com uma fórmula preocupada com defini-lo e situá-lo, mas sim trazê-lo ao plano do inteligível.

Desse ponto de vista, sua lógica era correta. Se o Filho é consubstancial ao Pai, o Pai gerou a si mesmo e o inascível nasceu dele. Como os dialéticos do século XII, Eunômio teve como único erro eliminar o mistério em nome da lógica. Se nasceu, dizia do Filho, é porque não existia antes de nascer. Em vez de falar do Deus cristão na língua de Platão, Eunômio fazia do demiurgo de Platão o Pai do Verbo cristão.

Compreende-se melhor, com isso, um dos traços mais constantes da atitude de Gregório Nazianzeno e o sentido da sua obra. No admirável Sermão XXXVI, intitulado Sobre ele mesmo, em que procura explicar por que os ouvintes de Constantinopla acotovelavam-se em torno da sua cátedra, Gregório alega como motivo principal que, numa época em que a filosofia invade tudo, ele contentou-se em beber na fonte da fé. O que falta aos filósofos, aos sofistas e aos sábios de seu tempo é precisamente a sabedoria. Se eles descarregarem um pouco o barco, este só flutuará melhor. Voltar aos costumes e à fé dos cristãos, eis o verdadeiro remédio. E é por conselhos do mesmo gênero aos filósofos que Gregório abre, no Sermão XXVII, a série de suas Theologica. Dirigindo-se aos eunomianos, adjura-os a voltarem primeiro à simplicidade da fé, o que exige que eles primeiro se purguem de seus vícios e não se apliquem à meditação das Escrituras, não para as julgar e criticar na qualidade de filósofos (XXVII, 6), mas para se submeter a elas. Não é, aliás, que o próprio Gregório renuncie a filosofar. Muito ao contrário, ele exige o direito de discutir o mundo ou os mundos, a matéria, a alma, os seres racionais, os bens e os males, a ressurreição, o julgamento, os sofrimentos de Cristo, recompensas e castigos. Nada mais legítimo, desde que se o faça com moderação, depois de ter-se instruído das Escrituras, para depois instruir os outros. Assim é, de fato, a teologia (Sermão XXVIII), não a desses “teólogos profanos”, que tudo resolvem, mas a dos cristãos, que se exprimem comedidamente diante da incompreensibilidade de Deus.

Apoiando-se ao mesmo tempo nas Escrituras e na razão, Gregório estabelece primeiro, contra Epicuro, que Deus não é um corpo, não está circunscrito por nenhum lugar, depois, desculpando-se por parecer ceder ao furor de debater sobre tudo o que grassa em seu tempo (Sermão XXVIII 11), empreende a exposição, ponto por ponto, da noção cristã de Deus, pelo menos aquela que é concebível à luz do que o próprio Deus nos ensina a esse respeito. Porque é isso o essencial e como que o ponto de partida da filosofia (XXVIII, 17): se, como ensinam os próprios filósofos, Deus é incompreensível, nossa única chance de conhecê-lo consiste em nos instruirmos primeiro acerca do que ele mesmo nos diz de Si. Portanto, é tão-somente a partir daí que Gregório consente especular, mas, fortalecido por essa garantia, o faz sem escrúpulo. A existência de Deus pode ser conhecida a partir da ordem do mundo, cuja existência e cuja disposição não se explicam razoavelmente pelo acaso. Portanto, é preciso admitir um Logos para explicá-la. Se podemos, assim, saber que Deus é, não podemos saber o que ele é. Esse segredo, que o envolve, ensina-nos a humildade, mas provoca-nos, apesar disso, à busca. Seguramente, sabemos de antemão que nossos esforços permanecerão vãos em grande medida. O corpo do homem se interpõe entre sua alma e Deus. Imagens sensíveis se mesclam inevitavelmente aos conceitos que formamos dele e nos tornam impossível concebê-lo tal como ele é. O que podemos fazer de mais útil para nos aproximarmos do que seria um conhecimento próprio da natureza divina é negar o que é manifestamente impossível atribuir-lhe. Já dissemos que Deus não é um corpo, ainda que tão sutil quanto o éter, pois é simples; mas tampouco é luz, sabedoria, justiça ou razão, pelo menos no único sentido distinto que esses termos possam ter para nós. Os únicos atributos que mais nos aproximam de um conhecimento positivo de Deus são os que o determinam como ser: a infinidade e a eternidade. Como ele próprio disse a Moisés, Deus é o Ser, e Gregório Nazianzeno teve o grande mérito de dar a essa noção toda a positividade que o pensamento cristão da Idade Média devia reconhecer-lhe. Usando uma fórmula que será popularizada por João Damasceno, Gregório compara Deus a um “oceano de realidade (pélagos ousias) infinita e sem limites, inteiramente emancipada da natureza e do tempo”.
Todas essas noções, hoje familiares a quem conhece um pouco a teologia natural de um autor cristão qualquer, eram reunidas e formuladas aqui pela primeira vez numa língua elegante, em termos acessíveis a todos. Mas Gregório sempre se detém respeitosamente no limiar do mistério. Como o Pai pode ter gerado e como o Filho pode ter sido gerado? Ignoramo-lo. Obstinar-se, como Eunômio, a reduzir o mistério à lógica é dar prova de certa ingenuidade. O Pai, diz ele, gerou um existente e um não-existente, e assim por diante. Vãs questões! Acaso elas não equivalem a representar a geração do Verbo pelo Pai como a de um homem por um homem? Nada é mais frívolo. O fato de o próprio Gregório utilizar termos filosóficos para descrever o mistério não significa, pois, de forma alguma, que ele pretenda esclarecê-lo e, finalmente, dissipá-lo. Como diz com razão A. Puech: “Gregório é profundamente cristão. Se algumas idéias neoplatônicas contribuíram para desenvolver sua teologia, se o que há de mais elevado no cinismo e no estoicismo integra em parte seu ideal ascético, seu pensamento e sua vida sempre foram dirigidos pela fé. Mas ele conservava, arraigado em seu coração, o amor antigo, o amor helénico das letras, o amor da poesia e da retórica. Nunca pensou em renunciar a ele, e se desculpava comprazendo-se no pensamento de que a fé nos foi revelada pelo Verbo divino. Portanto, é preciso que seja o verbo humano a pregá-la. O Verbo divino patrocina e defende a eloqüência; o Logos protege os logoi. Isso não era, para Gregório, um simples trocadilho; para ele, era a própria verdade.” Não se poderia dizer melhor; acrescentemos apenas que, fórmulas à parte, essa atitude de Gregório Nazianzeno é a dos três grandes capadócios.

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