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Obras da Patrística

Orígenes

Giovanni Reale

O pensamento de Orígenes coloca no centro Deus e a Trindade. A chave filosófica em que pensa Deus é a da incorporeidade. Enganam-se aqueles que (interpretando grosseiramente a Bíblia) pensam que Deus seja fogo ou sopro ou então que (como os estóicos) pensam o ser somente como corpo: “Deus não pode ser entendido como corpo”, mas sim como “realidade intelectual e espiritual” e “natureza intelectual simples”. Deus não pode ser conhecido em sua natureza: “Em sua realidade, Deus é incompreensível e inescrutável. Com efeito, podemos pensar e compreender qualquer coisa de Deus, mas devemos crer que ele é amplamente superior àquilo que dele pensamos. (…) Por isso, sua natureza não pode ser compreendida pela capacidade da mente humana, mesmo que seja a mais pura e a mais límpida.” Podem-se ouvir ecos neoplatônicos nessas palavras: com efeito, em Alexandria, Orígenes freqüentou as aulas de Amónio Sacas, cuja escola foi a forja do neoplatonismo. Orígenes chega inclusive a falar de Deus como de “mônadas e ênadas” e usa até mesmo a expressão “acima da inteligência e do ser”, que Plotino tornaria famosa. Entretanto, ele não hesita em considerar Deus também como “Inteligência, fonte de toda inteligência e de toda substância intelectual”, como Ser que dá o ser a todas as coisas, ou melhor, que “participa de tudo aquilo que é ser”, e como Bem ou “Bondade absoluta”, do qual deriva todo outro bem.

O Filho unigênito de Deus, segunda pessoa da Trindade, é “a Sabedoria de Deus substancialmente existente”. E nessa “sabedoria existente estavam contidas virtualidade e forma de toda futura criatura, seja daquelas que existem primariamente, seja daquelas que delas derivam de modo acidental e acessório, todas pré-formadas e dispostas em virtude de presciência”. As Idéias platônicas tornam-se assim a sabedoria de Deus: “E, se tudo foi feito na sabedoria, já que a sabedoria sempre existiu, sempre existiram na sabedoria, pré-constituídos sob a forma de Idéias, os seres que posteriormente iriam ser criados também segundo a substância.” Combatendo gnósticos, adocionistas e modalistas, Orígenes sustenta que o Filho de Deus foi “gerado” ab aeterno pelo Pai e não “criado” como as outras coisas, nem “emanado”: foi gerado por via de atividade espiritual, como, por exemplo, a “vontade” deriva da mente. E “essa geração é eterna e perpétua, assim como o esplendor é gerado pela luz, já que o Filho tornou-se tal não por adoção do Espírito, do exterior, mas é Filho por natureza”. O Filho é “da mesma natureza” (homooúsios) do Pai. Orígenes, entretanto, admite uma certa “subordinação” do Filho ao Pai, do qual é ministro. Esse subordinacionismo reflete indubitavelmente influências da concepção hierárquica do inteligível do medioplatonismo e do nascente neoplatonismo. Enquanto o Pai é unidade absoluta, o Filho, embora também sendo unidade, desenvolve múltiplas atividades e por isso recebe muitos nomes na Escritura, conforme as atividades desenvolvidas. Cristo tem duas naturezas: é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (não homem aparente, como pretende a heresia docetista) e, como tal, tem corpo e alma (a alma de Cristo desempenha papel mediador entre o Logos divino e o corpo humano).

Foi Orígenes quem estudou com atenção o Espírito Santo, pela primeira vez, identificando a sua função específica na ação santificante. Ao caracterizar o Pai, o Filho e o Espírito Santo como hierarquia, Orígenes revela mais influências platônicas do que em qualquer outro ponto do seu sistema, como demonstram estas afirmações suas: “Deus Pai, que tudo abrange, chega até cada um dos seres, fazendo-os participar do seu ser e fazendo-os ser o que são. O Filho é inferior em relação ao Pai, alcançando somente as criaturas racionais; com efeito, ele é segundo depois do Pai. Ainda inferior é o Espírito Santo, que só chega aos santos. Por isso, o poder do Pai é maior do que o do Filho e o do Espírito Santo; o do Espírito Santo, por seu turno, é superior em relação ao dos outros seres santos. Por isso, considero que a ação do Pai e do Filho se dirija tanto aos santos como aos pecadores, aos homens dotados de razão e aos animais privados de palavra, bem como aos seres que não têm alma e, em geral, a todos os seres. Já a ação do Espírito Santo não pode dirigir-se em absoluto a seres sem alma ou àqueles que, embora animados, são privados de palavra e nem mesmo àqueles que são dotados de razão, mas estão em poder do mal, não se voltando absolutamente para o bem.” Deve-se observar, ademais, que o “subordinacionismo” de Orígenes foi exagerado por seus adversários, que dele tiraram conclusões indevidas. É bom destacar que Orígenes traça essa hierarquia, mas, ao mesmo tempo, ressalta a identidade de natureza, substância ou essência entre Pai e Filho. Ademais, o que é fundamental, afasta-se de modo bastante claro do neoplatonismo, colocando entre Deus-Trindade e as outras coisas uma separação ontológica através do conceito de criação do nada, de modo que o esquema metafísico segundo o qual a realidade é desenvolvida revela-se completamente diferente do esquema da processão neoplatônica, tanto mais que, na obra Sobre os princípios, ele nos fala de criação ab aeterno das Idéias no Verbo e não de toda a realidade.
A doutrina da criação de Orígenes é bastante complexa. Primeiro, Deus criou seres racionais, livres, todos iguais entre si— e os criou à própria imagem (enquanto racionais). A natureza finita das criaturas e sua liberdade deram origem a uma diversidade no seu comportamento: algumas permaneceram unidas a Deus, outras se afastaram, pecando, por causa de um esfriamento do amor a Deus. E assim nasceu a distinção entre anjos, homens e demônios, conforme tenham permanecido fiéis a Deus, se afastado em certa medida ou se afastado muito de Deus. O corpo e o mundo corpóreo em geral nasceram como conseqüência do pecado. Deus revestiu de corpos as almas que se afastaram parcialmente dele. Mas o corpo não é algo negativo (como para os platônicos e, sobretudo, para os gnósticos): é o instrumento e o meio de expiação e purificação. A alma, portanto, preexistia ao corpo, ainda que não de modo platônico, porque criada do nada. E a diversidade dos homens e de suas condições remonta à diversidade de comportamento na vida anterior (maior ou menor afastamento de Deus).

Uma doutrina típica de Orígenes (derivada dos gregos, embora com notáveis correções) é aquela segundo a qual o “mundo” deve ser entendido como uma série de mundos, não contemporâneos, mas subseqüentes um ao outro: “Deus não começou a agir pela primeira vez quando criou este mundo visível. Acreditamos que, como depois do fim deste mundo haverá um outro, da mesma forma, antes deste houve outros.” Essa visão relaciona-se estreitamente com a concepção origeniana segundo a qual, no fim, todos os espíritos se purificarão, resgatando as suas culpas, mas, para purificarem-se inteiramente é necessário que eles sofram uma longa, gradual e progressiva expiação e correção, passando portanto por muitas reencarnações em mundos sucessivos.

Portanto, para Orígenes, o fim será exatamente igual ao princípio, isto é, tudo deverá tornar a ser como Deus criou. Essa é a célebre doutrina origeniana da apocatástase, ou seja, a reconstituição de todos os seres no estado original. Eis como o nosso filósofo se expressa a respeito: “Consideramos (…) que a bondade de Deus, por obra de Cristo, chamará todas as criaturas a um único fim, depois de ter vencido e submetido também os adversários. (…) Observando tal fim, no qual todos os inimigos estarão sujeitos a Cristo e será destruído inclusive o último inimigo, a morte, e quando Cristo, ao qual tudo estará sujeitado, entregará o reino a Deus Pai, podemos por esse fim conhecer o início das coisas. Com efeito, o fim é sempre semelhante ao início. E como um só é o fim de tudo, assim também devemos entender como um só o início de tudo. E como um só é o fim de múltiplas coisas, assim também de um só início derivaram coisas muito variadas e diferentes, que novamente, pela bondade de Deus, a sujeição de Cristo e a unidade do Espírito Santo, são remetidas a um só fim, que é semelhante ao início.” Então, se isso é verdade, diz Orígenes, “devemos crer que toda esta nossa substância corpórea será retirada a tal condição quando toda coisa for reintegrada para ser uma coisa só e Deus for tudo em todos. Isso, porém, não acontecerá em um só momento, mas lenta e gradualmente, através de infinitos séculos, já que a correção e a purificação advirão pouco a pouco e singularmente: enquanto alguns com ritmo mais veloz se apressarão como primeiros na meta, outros os seguirão de perto e outros ainda ficarão muito para trás. E assim, através de inumeráveis ordens constituídas por aqueles que progridem e, de inimigos que eram, se reconciliam com Deus, chega-se ao último inimigo, a morte, para que também ela seja destruída e não haja mais inimigo.”

Nesse processo, porém, deve-se destacar que, para as criaturas individualmente, pode se verificar tanto um progresso como um retrocesso, ou seja, tanto uma passagem de demônio a homem ou a anjo como, ao contrário, a passagem inversa, antes que tudo retorne ao estado original.
Cristo se encarnou uma só vez neste mundo. Sua encarnação está destinada a permanecer um evento único e irrepetível.

Orígenes exaltou ao máximo o livre arbítrio das criaturas, em todos os níveis de sua existência. No próprio estágio final, será o livre arbítrio de cada uma e de todas as criaturas que, vencido pelo amor de Deus, continuará a aderir a ele, agora, porém, sem mais recaídas.

Orígenes sustenta a tese de que as Escrituras podem ser lidas em três níveis: 1) literal, 2) moral e 3) espiritual, que é o mais importante, mas também de longe o mais difícil.

A importância de Orígenes é notável em todos os campos. Os seus próprios erros devem-se aos excessos de um grande espírito generoso, não a mesquinhos desejos de originalidade. Ele quis ser cristão até as últimas conseqüências, suportanto com heroísmo as torturas que o levariam à morte, para permanecer fiel a Cristo. As próprias doutrinas que não se inserem nos quadros da ortodoxia são explicáveis plausivelmente se colocadas na situação concreta do momento histórico em que Orígenes viveu. E, como ressaltaram muito bem alguns estudiosos, elas revelam um profundo significado “apologético” em favor do cristianismo. Contra as mais disparatadas interpretações, muitas vezes parciais e preconceituosas, hoje vai se delineando uma releitura muito mais equilibrada do nosso filósofo. M. Simonetti, que organizou uma bela tradução de
Os princípios (aqui utilizada por nós), depois de destacar os traços problemáticos e hipotéticos com que o próprio Orígenes propôs certas soluções suas, escreve: “Considerando essas explicações, o pensamento de Orígenes, que, por seu querer, sempre e somente quis ser homem da Igreja, parece-nos substancialmente em harmonia com as premissas fundamentais da fé cristã: basta ver a precisa distinção que ele faz, apesar de seu subordinacionismo, entre o mundo de Deus e o mundo da criação, a precisão com que afirma a criação de todas as coisas do nada, a função central que atribui ao Logos na criação e, após o pecado, na recuperação das criaturas, até a restauração final de todas as coisas em Deus.”

Orígenes foi a mente mais filosófica e “o maior erudito da Igreja antiga” (J. Quasten).

Arquivado em:Orígenes

One Response

  1. Daniel Bestetti disse:

    Muito boa a portagem. Parabéns ao autor.

    Tenho sido já a alguns anos um adimirador de Orígenes, por ter descoberto uma hermenêutica que praticamente é a descrita no artigo.

    Em dias em que me vejo cercado por Evangelhos incompletos, falsos na maioria das vezes, me supreende ver um artigo deste, trazendo comentários na medida certa para um grande e maravilhoso irmão em Cristo Jesus.

    A coragem está em tecer os comentários apresentados, mesmo sob a rigidez dos olhares dos teólogos ditos “tradicionais” que, fervorosamente e impiedosamente, defendem a hermenêutica chamada de “Gramático- histórica” de Calvino, a qual se mostra “rasa” e incompleta para o todo propiciado pela hermenêutica de Orígenes, fato que projeta a punição de Ap 22:19 para os que esta hermenêutica defendem e ensinam.

    Apesar da extrapolação, ao meu ver, das afirmações de Orígenes para onde na Bíblia verificamos o “silêncio”, o autor e suas fontes souberam preservar os “motivos” que levaram Orígenes a fazê-lo, o que creio foi algo levado em consideração também por Deus.

    Soube assim o autor, “jogar”, com delicadeza e amor, sutilmente a “água levemente suja” do banho do neném, sem jogar o neném fora.

    Parabéns!

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