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Obras da Patrística

Gregório de Nissa, por Giovanni Reale

Para a história das idéias filosóficas, dentre os teólogos mencionados, interessa sobretudo Gregório de Nissa (331-394), que, juntamente com seu irmão Basílio (331-379) e Gregório Nazianzeno (330-390), retomou de seus antecessores a herança grega com mais consistência e consciência. A esse propósito, escreve Werner Jaeger:

“Orígenes e Clemente haviam-se movido por esse caminho de altas reflexões, mas agora era preciso muito mais. Certamente, Orígenes havia dado sua teologia à religião cristã no espírito da tradição filosófica grega, mas aquilo que os Padres da Capadócia visavam em seu pensamento era uma civilização cristã total. E levavam para essa empresa a contribuição de uma vasta cultura, que é evidente em cada parte de seus escritos. Apesar de suas convicções religiosas, que se opunham à religião grega que naquela época era solicitada por forças poderosas do Estado (basta pensar nas tomadas de posição do imperador Juliano), não mantiveram oculto seu alto apreço pela herança cultural da antiga Grécia. E assim encontramos uma linha clara d demarcação entre religião grega e cultura grega. Desse modo, sob nova forma e em nível diferente, eles reviveram aquela conexão, sem dúvida positiva e produtiva, entre cristianismo e helenismo, que já encontramos em Orígenes. Nesse caso, não é exagerado falar de uma espécie de neoclassicismo cristão, que é mais do que um fato puramente formal. Graças à sua obra, o cristianismo ergue-se agora como o herdeiro de tudo o que parecia digno de sobreviver na tradição grega. Com isso, ele não apenas se fortalece e reforça sua posição no mundo civil, com também salva e dá nova vida a um patrimônio cultural que, em grande parte, sobretudo nas escolas retóricas da época, se havia tornado uma forma vazia e adulterada de uma tradição clássica já ossificada. Muito já se disse sobre os vários renascimentos que a cultura clássica, tanto grega como romana, experimentou ao longo da história, no Oriente e no Ocidente. Mas pouca atenção se deu ao fato de que, no século IV, a época dos grandes Padres da Igreja, temos um verdadeiro renascimento, que deu à literatura greco-romana algumas de suas maiores personalidades, que exerceram uma influência duradoura na história e na cultura, de sua época até nossos dias. E a diversidade do espírito grego em relação ao romano bem caracterizada pelo fato de que o Ocidente latino tem o seu Agostinho, ao passo que foi através dos Padres capadócios que o Oriente grego produziu uma nova cultura.”

A tese de Jaeger (que nos deu uma importante edição crítica das obras de Gregório de Nissa) tem muito de verdadeiro, pois apresenta o mérito de reler os capadócios sob nova e fecunda ótica. Entretanto, essa recuperação da cultura clássica redunda num aumento dos espaços da razão no interior da fé, sem qualquer redução à dimensão mundana. Gregório de Nissa é categórico:

“Usamos a Sagrada Escritura como norma e lei de toda doutrina.” A cultura profana é “estéril, porque, quando concebe, não leva o parto a cumprimento. […] Mesmo que tais doutrinas nem sempre sejam de todo vãs e informes, o que acontece é que abortam antes de alcançar a luz do conhecimento de Deus.”

A filosofia grega é útil, mas só se oportunamente purificada:

“A filosofia moral e a filosofia política poderiam realmente favorecer uma autêntica vida espiritual, se conseguissem purificar seus dados doutrinários das deturpações dos erros profanos.”

O Grande Discurso Catequético, que constitui a obra de maior destaque de Gregório, representa a primeira síntese orgânica dos dogmas cristãos, amplamente fundamentada e muito bem construída. Por longo tempo ela permaneceu como modelo e obra de referência.

Entre os diversos temas tratados nas obras de Gregório de Nissa, apontamos três, de particular interesse filosófico e moral.

Platonicamente, ele distingue a realidade em mundo inteligível e mundo sensível e corpóreo. Mas, neoplatonicamente, o mundo sensível é quase esvaziado de sua materialidade, sendo concebido como produto da qualidade e de forças incorpóreas, como se pode ler no De opificio hominis:

“Como não há corpo que não seja dotado de cor, forma, resistência, extensão, peso e outras qualidades restantes – cada qual não é corpo, sendo algo diferente do corpo, segundo o seu caráter particular -, assim, pelo contrário, onde quer que ocorram tais coisas se opera a existência do corpo. Mas, como a cognição dessas qualidades é inteligível e como a Divindade, por natureza, também é substância inteligível, então não é inverossímil que, na natureza incorpórea, também possam existir esses princípios inteligíveis, pela gênese dos corpos, com a natureza inteligível fazendo brotar as forças espirituais e o encontro entre eles levando ao nascimento da natureza material.

Outra idéia de Gregório de Nissa sobre o homem também se destacou. Dizer que o homem é um “microcosmos”, como fizeram os filósofos gregos, significa dizer algo muito inadequado. O homem é muito mais. Eis as palavras precisas de Gregório, que podem ser lidas na Criação do homem:

os filósofos pagãos“imaginaram coisas mesquinhas e indignas da magnificência do homem, na tentativa de elevar o momento humano. Disseram, com efeito, que o homem é um microcosmos, composto pelos mesmos elementos do todo. E, com esse esplendor de nome, quiseram fazer o elogio da natureza, esquecendo-se de que, deste modo, tornavam o homem semelhante às características da mosca e do rato, pois, com efeito, também há neles a mistura dos elementos. […] Que grandeza tem, portanto, o homem se o consideráramos figura e semelhança do cosmos? Deste céu que nos circunda, da terra que muda, de todas as coisas que nele estão contidas e que passam, com aquilo que os circunda. Mas em que consiste então, segundo a Igreja, a grandeza do homem? Não na semelhança com o cosmos, mas sim no ser imagem do Criador de nossa natureza.”

A alma e o corpo do homem são criados simultaneamente, a alma sobrevive e a ressurreição reconstitui a união. Gregório retoma de Orígenes a idéia de apocatástase, ou seja, a reconstituição de todas as coisas assim como era na origem: até os maus, depois de terem sofrido as penas purificadoras, retornarão ao estado original (todos se salvarão).

Por fim, encontramos em Gregório uma versão cristã da elevação a Deus neoplatônica, que se realiza pela remoção daquilo que nos divide de Deus:

“A divindade é pureza, libertação em relação às paixões e remoção de todo mal: se todas essas coisas estão em vós, então Deus está realmente em vós. Se o vosso pensamento está livre de todo mal, liberto das paixões, imune a toda impureza, então vós sis bem-aventurados, porque vedes claramente e porque, estando purificados, percebeis aquilo que é invisível para aqueles que não estão purificados. E, uma vez removida dos olhos de vossa alma a obscuridade carnal, vereis claramente a bem-aventurada visão.”

Teófilo de Antioquia já dizia : “Mostra-me o teu homem e eu te mostrarei o meu Deus.”

Aprofundando esse conceito, Gregório de Nissa leva-o à sua formulação perfeita com essa afirmação, que o marca do modo mais significativo:

“A medida pelo qual podeis conhecer a Deus está em vós memos.”

Arquivado em:São Gregório de Nissa

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