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Obras da Patrística

Prefiro agora a Fé Católica

Santo Agostinho, Confissões- VII

Desde então comecei a preferir a doutrina católica, porque agora compreendia: era mais modesto e sincero prescrever a fé em algo que não podia ser demonstrado, tanto por incapacidade da maioria dos homens, como simplesmente por absoluta impossibilidade, do que zombar da fé, prometendo temerariamente uma ciência, para afinal impor a crença numa grande quantidade de fábulas absurdas, incapazes de demonstração. E enquanto tua mão suave e misericordiosa plasmava e formava pouco a pouco o meu coração, eu refletia na infinidade de fatos em que acreditava, sem tê-los visto ou deles ter sido testemunha. Assim, os muitos episódios da história da humanidade, a existência de lugares e cidades nunca visitados, conhecimentos recebidos de amigos, de médicos e de tantos outros em quem temos de acreditar, sob pena de nada podermos realizar na vida. Enfim, como estava absolutamente seguro da identidade de meus pais, o que não poderia saber sem acreditar no que ouvia. Convenci-me então de que, longe de repreender os que acreditam em tuas Escrituras, reconhecidas com tanta autoridade em quase todos os povos, são repreensíveis aqueles que não acreditam e a quem não se deve dar ouvidos se disserem: “Como sabes que estes livros foram dados aos homens pelo espírito do único Deus, que é a verdade?” E isso se adequava tanto melhor à minha crença, quanto é certo que nenhum argumento, por mais capcioso que fosse, de tantos filósofos que discordavam entre si, cujos livros estudei, tinha podido arrancar do meu coração a fé na tua existência, apesar de ignorar o que eras e desconhecer que o governo das coisas humanas pertence a ti.

Na realidade, a esse respeito era a minha fé ora mais forte, ora mais fraca. Mas sempre acreditei que existes e que cuidas de nós, embora não soubesse que idéia devesse ter de tua natureza, ou que caminho nos levaria ou reconduziria a ti. Portanto, sendo os homens incapazes de encontrar a verdade mediante a razão pura, e tendo necessidade do apoio da Sagrada Escritura, eu já principiava a crer que não concederias tanta autoridade por toda a terra a estes Livros Sagrados se não tivesses querido que se acreditasse em ti e se buscasse a ti através deles.

E assim, eu já atribuía à profundeza dos mistérios as obscuridades que antigamente costumavam impressionar-me, pois, sobre o assunto eu já havia recebido várias explicações plausíveis. E a autoridade desses livros ainda me parecia tanto mais venerável e digna de fé absoluta, quanto era claro o seguinte: se de um lado a leitura deles estava ao alcance de todos, por outro lado reservava a dignidade de seu significado oculto a uma percepção mais profunda. A extrema clareza de linguagem e simplicidade de estilo a tornavam acessível a todos e estimulavam a perspicácia daqueles que não têm coração leviano . E recebendo em seu seio a humanidade inteira, apenas a poucos era dado chegar a ti, por estreitas passagens; estes, no entanto, são sempre mais numerosos do que o seriam se a Escritura não tivesse tanto prestígio aliado a tanta humildade, capaz de atrair multidões.

Assim eu meditava, e tu estavas a meu lado. Eu suspirava e tu me ouvias. Eu tateava e tu me guiavas. Eu andava pelos largos caminhos do mundo, e tu não me abandonavas.

Arquivado em:Santo Agostinho, Textos

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