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Obras da Patrística

Mensagem de Natal

Esse post é dedicado ao Pedro.

“Nada expressa melhor o sentido do Natal do que essa angústia, essa inquietação, esse pressentimento sombrio que antecedem o nascimento de Cristo.
É um simbolismo eterno que se repete nos fatos materiais da vida. Os dias que precedem o Natal são os da matança dos inocentes, da fuga para  o deserto, da Sagrada Família a bater em vão de porta em porta, em demanda  de um abrigo inexistente.

Um Deus vai nascer. O mundo treme e se apressa, como Herodes, para tentar  matá-Lo.
Não poderiam ser dias felizes. São os mais inquietantes do ano. Nem mesmo a  Sexta-Feira Santa é tão triste, porque o fato da morte vem com a certeza da  Ressurreição. Mas, quando um Deus vai nascer, tudo é incerto. O nascimento de um Deus é a morte de um mundo que não voltará à existência  depois de haver-se dissipado no nada. E ainda não se sabe o que virá  depois. Tudo aí é possível: as esperanças mais insensatas acotovelam-se aos  temores mais alarmantes, na expectativa de algo que não se sabe o que é,  mas que será decisivo. É a hora antes da aurora, a hora do lobo: o  predador, no lusco-fusco, ainda não sabe se vai caçar ou ser caçado.

O nascimento de um Deus é um anúncio do Juízo Final. Antecipadamente, há  choro e ranger de dentes. A humanidade agita-se, tentando em vão fugir do  peso de seus pecados. Cada um quer fingir para si mesmo que está bem, que  nada teme, que sua conta bancária, sua mesa farta, sua família feliz são um  atestado de garantia contra a danação eterna.

Parecendo negar a profecia, a agitação moderna não faz senão obedecê-la e  confirmá-la.
Mas eu seria o último a ver na corrida aos presentes apenas um  divertissement no sentido pascaliano, uma fuga ao sentido da vida. Ela é  também, nessa hora incerta, a afirmação de uma esperança. O Deus que vai  nascer pode não ser um juiz, mas um salvador. Não um castigo, mas um dom.

Ninguém o pode garantir antecipadamente. Comprar presentes, no meio da  angústia e da correria do mundo, é um ato de confiança na promessa das  Escrituras. Sem saber ainda o que vai acontecer, dispomo-nos a celebrá-lo  como um dom. Provemo-nos também dos dons que pretendemos ofertar, símbolos  miúdos do grande dom divino que esperamos.

Mas a incerteza nem por isso se dissipa.

Mesmo quando surge a estrela, anunciando o nascimento do Salvador, nem  todos atinam com o que está se passando. De início, só os sábios e os  pastores o compreendem. É na esperança de ser um deles que acorremos às  lojas, comprando o ouro, o incenso e a mirra com que mostraremos  reconhecer, nos entes queridos a quem presenteamos, a imagem do Menino Deus  recém-nascido.

Quer o saibamos ou não, o símbolo primordial molda nossas vidas,  reproduzindo-se e multiplicando-se em milhões de lares, por baixo de toda  agitação mundana que, parecendo negá-lo, o reafirma soberanamente.

A deusa história, a modernidade, nada pode contra isso. Ela não é senão  imagem e semelhança daquilo que nega. Afinal, quê poderia confirmar mais  plenamente o nascer do Sol do que o movimento das sombras que deslizam pelo  chão?
Qualquer que seja o rumo da História, a Palavra que a moldou antecipadamente não passará. “

Olavo de Carvalho- 2001

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