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Ícone

Obras da Patrística

Ícones

Dom Estevão Bittencourt

1. Ícones: que são?

A palavra “ícone” deriva do termo grego “eikón”, que significa genericamente “imagem”. Todavia, na história da arte e também na linguagem comum, a palavra ícone é reservada a uma pintura, geralmente portátil, de gênero sagrado, executada sobre madeira com uma técnica particular, e segundo uma tradição transmitida pelos séculos. A pátria do ícone é o Oriente bizantino que, com desvelo, conservou obras-primas artísticas de grande valor espiritual que chegaram até nós.

Os ícones representam Jesus Cristo, a Mãe de Deus, os anjos, os santos e outros temas religiosos, mas o ícone é muito mais do que uma simples figuração; somente o acontecimento da Encarnação de Nosso Senhor o tornou possível.
Fundamento do ícone: a Encarnação

No Antigo Testamento, Deus tinha proibido que se tentasse reproduzir a sua imagem. Textos bíblicos (Dt 4, 12 e 15) nos dizem que, também quando se ouviu o som das palavras de Deus, nenhuma imagem foi vista, e muitas censuras foram feitas a cada nova tentação de esculpir e adorar um ídolo! Somente a arte decorativa, prevalecendo a de forma geométrica, exprimia o sentido do infinito, como vemos ainda hoje com os hebreus ou os muçulmanos. Tão-só a representação dos anjos foi permitida no Antigo Testamento (Ex 25,17-22) e sobre a arca da aliança havia-se esculpido o ícone dos querubins como prenúncio de acontecimento futuro.

A hora do nascimento terreno do Filho de Deus é a hora do nascimento do ícone: Jesus Cristo, com efeito, não é apenas o Verbo de Deus, mas também a sua imagem: “Cristo é a imagem (eikón) do Deus invisível” (Cl 1, 15). São João Damasceno, o teólogo poeta, morto em 749, que nos seus três Tratados pela defesa dos santos ícones, na época iconoclasta, tanto aprofundou esta questão, explica a superação da proibição das Escrituras de se representar o Deus invisível:

“Quando virmos aquele que não tem corpo tornar-se homem por nossa causa, então poderemos executar a representação de seu aspecto humano. Quando o Invisível, revestido de carne, se tornar visível, então representa a imagem daquele que apareceu… Quando aquele que é a Imagem consubstancial do Pai despojou-se, assumindo a imagem de escravo (Fl 2, 6-7), tornando-se assim limitado na quantidade e na qualidade por se ter revestido da imagem carnal, então pintamos (…) e expomos à vista de todos Aquele que se quis manifestar. Pintemos o seu nascimento da Virgem, o seu batismo no Jordão, a sua Transfiguração no monte Tabor, pintemos tudo com a palavra e com as cores nos livros e na madeira”.[2]

O fundamental e primeiro ícone – tomando a palavra no seu significado mais amplo de imagem – é, assim, a própria face de Cristo. E podemos representá-la, porque não se trata mais de uma imagem inacessível à vista, mas de uma pessoa real. O ícone de Jesus Cristo exprime, através da imagem, o dogma do Concílio de Calcedônia (451): o ícone não representa tão-só a natureza divina, nem só a natureza humana de Cristo, mas representa a sua Pessoa, a pessoa de Deus-Homem, que reúne em si “sem mistura nem divisão” as duas naturezas.

Doravante, serão possíveis também os ícones da Mãe de Deus, mesmo quando a Virgem Santíssima carrega o Filho divino (e são pouquíssimos os ícones sem a presença de Jesus); eles são às vezes denominados ícones da Encarnação.

Serão possíveis os ícones dos santos, porque, assumindo a natureza humana, o Filho de Deus não só renova no homem a imagem obscurecida com a queda de Adão, mas a recria mais profundamente à imagem de Deus. Cristo abre para o homem o caminho da transfiguração pela graça… como diz São Paulo: “Nós que (…) refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem” (2Cor 3, 18). Assim, o ícone transmite verdadeiramente a imagem do um homem purificado, transfigurado…. revestido da beleza incorruptível do Reino de Deus, de uma pessoa humana transformada em ícone vivente de Deus (pp. 15-18).

2. Função do Ícone

Os ícones, “visíveis representações das magnificências misteriosas e sobrenaturais”, para usar a antiga fórmula de São Dionísio Areopagita, têm lugar importantíssimo na tradição espiritual ortodoxa. E, se quisermos apressar a união entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente – elas que no primeiro milênio tinham em comum também a língua viva do sinal iconográfico -, devemos conhecê-los, apreciá-los, compreendê-los como um “tesouro espiritual”; o que eles representam para os cristãos da tradição bizantina…

O ícone não é o resultado de uma intuição ou a figuração de uma impressão do artista; ele é fruto de uma tradição e, antes de ser pintado, é uma obra profundamente meditada, pacientemente elaborada por gerações de pintores. Um especialista soviético [3] dizia que “o ícone não é um quadro; nele vem representado não aquilo que o pintor tem diante dos olhos, mas certo protótipo a que ele deve ater-se. A veneração dos ícones deriva da veneração do protótipo. Os ícones são beijados; através deles esperam-se curas; são venerados, porque são representações de Cristo, da Virgem Maria, dos Santos. Os ícones entram no ofício litúrgico. A iconografia é, de certo modo, uma arte ritual. A reverência devida ao ícone e a sua criação foram rigidamente regulamentadas pelo VII Concílio Ecumênico. Os eclesiásticos consideravam-se verdadeiros criadores de ícones e os artistas eram tidos como realizadores das idéias deles” (pp. 7-9).
O ícone é uma “janela para a eternidade”

A frase, propositadamente repetida, não é um slogan: através do ícone o divino nos ilumina. A luz é o atributo principal da glória celeste e os ícones representam os habitantes do Reino, contempladores da luz incriada, pela qual se deixam penetrar até se tornarem esplendorosos, como indica o nimbo ao redor de seus rostos (os nimbos não são, como as auréolas ou as coroas, simples sinais da santidade).

O ícone, visto com os olhos do coração iluminados pela fé, nos abre para a realidade invisível, para o mundo do Espírito, para a economia divina, para o mistério cristão na sua totalidade ultraterrena. É lugar teológico, antes, “teologia visual”, como muitos já disseram.

O ícone é inspirado e sagrado de modo específico, símbolo que contém presença, cujo tempo, espaço e movimento não são representados pela percepção comum. A própria laconicidade de seus traços nos remete para uma mensagem de fé, a “visão do Invisível”, para empregar as palavras de São Paulo (Hb 11,1).

“O ícone se afirma independentemente do artista e do espectador e suscita não a emoção, mas a vinda do transcendente, cuja presença ele atesta. O artista se esconde atrás da Tradição que fala. A obra torna-se uma manifestação de Deus, diante da qual devemos nos prostrar num ato de adoração e de oração”.[4]

Poder-se-ia continuar muito mais, tentando precisar bem o que é o ícone, mas os orientais não gostam de definir; pelo contrário – observa um deles – é necessário não definir! Portanto, procuremos descobrir pessoalmente o que é o ícone…

No recolhimento e no silêncio, os olhos se abrem para a luz da Transfiguração e seremos naturalmente conduzidos pela força do Espírito à luz do ícone, a fim de contemplar não só a face de Jesus, mas também a luz da verdade divina (pp. 20s).

3. Imagens do Invisível

Deus sabe tirar o bem de tudo! Alegremo-nos, pois “os ícones da antiga Rússia revelaram o mundo interior do homem, a pureza, a nobreza de sua alma, a sua capacidade de sacrifício, a profundidade de seu pensamento e dos seus sentimentos”, como escreve o pintor Igor Grabar, Acadêmico soviético e também Diretor do Laboratório Nacional de Restauração. Ele continua: “Pela primeira vez (sob as camadas de verniz fuliginosas e reparos) apareceu uma arte brilhante, que nos impacta e encontra pela harmonia delicada de suas cores, pelo ritmo e a segurança de suas linhas, pelo caráter profundamente inspirado de suas imagens”. A pintura dos ícones da antiga Rússia é parte integrante do tesouro constituído pela herança cultural de toda a humanidade”.[5]

Para compreender os ícones, é necessária uma tríplice aproximação entre: conhecimento científico, valor artístico e visão teológica.

Paulo VI, falando aos artistas, reunidos em 7 de maio de 1964 na Capela Sixtina, denominou-os mestres na arte de “transvasar o mundo invisível com fórmulas acessíveis e inteligíveis”. O ícone é realmente a apresentação dos dogmas de modo visível; é antes um lugar de presença e de encontro espiritual, um sinal de graça.

O ícone nos mostra o homem como Deus o ama, transfigurado pelos seus dons, e é um convite para nos abrirmos à realidade espiritual, a rezar; “ligada intimamente à economia da salvação, a imagem sagrada põe em destaque os dois aspectos principais da obra redentora de Cristo: a pregação da verdade e a comunicação da graça”.[6]

Na civilização da imagem, freqüentemente dispersiva, em que vivemos, a presença do ícone nos ajuda a realizar nossa vocação cristã: reproduzir em nós a imagem de Cristo, tornar-nos seu “ícone”.

“Cristo, verdadeiramente luz que ilumina e santifica todo homem que vem ao mundo, resplandeça sobre nós a luz de vossa face, a fim de que nela vejamos a luz inacessível; e dirigi nossos passos para o cumprimento dos vossos mandamentos, pelas orações de vossa puríssima Mãe e de todos os Santos. Amém” (pp. 10-12).

4. O Iconoclasmo

Iconoclasta significa literalmente “quebrador de ícones” ou de imagens sagradas. Tal palavra é usada para indicar os inimigos fanáticos do emprego e do culto das imagens que surgiram no império bizantino durante os séculos VIII-IX.

A história do iconoclasmo se desenvolveu sob a direção dos imperadores bizantinos em duas épocas. Entre elas há um período de tranqüilidade, que permitiu a realização do VIII Concílio ecumênico em Nicéia em 787. A guerra contra as imagens foi declarada em 725 pelo imperador Leão III, lsáurico, que sem dúvida se deixou influenciar pelo judaísmo e pelo islamismo. É certo que houve muitos exageros na veneração de ícones (chegou-se a misturar as espécies eucarísticas com crostas coloridas retiradas das pinturas religiosas, dando-se aos fiéis na Comunhão), mas a violenta tempestade iconoclasta serviu para acender partidos opostos. E, quando, em janeiro de 729, foi golpeada a imagem de Cristo no bairro de “Calchis” em Constantinopla, houve um comovente protesto popular, rapidamente sufocado no sangue.

Infelizmente, vários bispos aceitaram o ponto de vista do imperador e o corajoso patriarca de Constantinopla, São Germano, defensor dos ícones, foi constrangido a renunciar. Também sob o imperador Constantino V, Coprônimo, a oposição às imagens sagradas continuou, chegando a uma definição oficial.

Um oros, subscrito por cerca de 338 bispos, condenava, em 752, o uso e o culto das imagens, admitindo porém certo culto de intercessão dirigido à Mãe de Deus e aos Santos. Mas o povo, e sobretudo os monges, protestaram. Foi o início de uma verdadeira perseguição com exílios, prisões, torturas e, por fim, martírios entre os defensores dos ícones, com uma bárbara destruição de objetos sagrados.

De 775 a 780, sob Leão IV, a luta iconoclasta mitigou-se, e, quando da morte do imperador, a viúva Irene assumiu o poder em nome do filho de 6 anos, Constantino VI, então foi possível a restauração do culto das imagens. Em 785, a imperatriz enviou uma delegação a Roma, propondo ao papa a convocação de um Concílio ecumênico. O papa Adriano I aprovou a idéia e enviou legados que assistiram, em 17 de agosto do ano seguinte, à abertura de um Concílio em Constantinopla, na igreja dos Santos Apóstolos. Soldados iconoclastas se rebelaram e Irene viu-se constrangida a prorrogar o Concílio, realizando-o em Nicéia em 787. Foi então esclarecido e justificado o culto prestado às imagens sagradas e o iconoclasmo anatematizado.

A paz parecia restabelecida, mas com a eleição do armênio Leão V, em 813, mantido por uma revolta militar, reacende-se a luta contra as imagens sagradas. O patriarca de Constantinopla, São Nicéforo, teve de pedir demissão em 815 e a perseguição contra os iconófilos foi ainda mais violenta que a precedente: bispos arrancados de suas sedes, mosteiros fechados, monges e fiéis aprisionados e torturados até a morte. Leão, o armênio, foi morto em 820; todavia, ainda sob os seus dois sucessores, apesar de uma trégua parcial, a luta iconoclasta continuou. Somente em 842, com a morte do imperador Teófilo, a viúva regente, Teodora, favorável às imagens, restaurou com prudência o culto das mesmas, começando por afastar o patriarca iconoclasta, substituindo-o por Metódio, que viria a ser canonizado mais tarde. Em 11 de março de 843, primeiro domingo da Quaresma, pôde-se finalmente celebrar com solenidade a vitória dos partidários de ícones, conhecida como “Triunfo da Ortodoxia”. Uma festa que foi além do primeiro domingo, com textos próprios e belíssimos, onde foram reafirmadas a validade e a importância do culto às imagens sagradas – muitos ícones foram carregados em procissão.

As lutas iconoclastas repercutiram apenas indiretamente no Ocidente, aonde foram ter monges foragidos das perseguições, geralmente carregando ícones consigo. Os Papas, desiludidos com os imperadores orientais, hereges e impotentes diante das invasões dos bárbaros, começaram a depositar sua confiança na nova potência política que surgia no Ocidente, com Pepino, o Breve, e Carlos Magno…

É significativo que o triunfo sobre os iconoclastas permaneça lembrado como “Festa da Ortodoxia”, e o Kondakion do dia resume bem os temas de fundo:

“O Verbo do Pai, que não tem limites, foi circunscrito, encarnando-se em vós, Mãe de Deus; elevou ao primitivo estado a nossa imagem (=ícone) desfigurada pelo pecado, elevando-a à beleza divina. Reconhecendo assim a nossa salvação, procuramos realizá-la com a ação e a palavra”.

Outros concílios realmente ecumênicos, com a presença dos representantes das Igrejas do Oriente e do Ocidente, nunca foram convocados; todavia encontram-se em concílios locais referências sobre a iconografia e a arte sacra em geral. Como exemplo, temos o Concílio ortodoxo moscovita de 1551, conhecido como dos “Cem capítulos”. Ele lembra a importância da verdadeira iconografia, que corresponde às diretrizes da Igreja, acrescentando o exemplo dado pelo monge Rublëv. O Concílio católico de Trento tem um decreto De invocatione, veneratione et reliquiis Sanctorum et sacris imaginibus, com uma referência específica ao II Concilio de Nicéia. [7] Também o Vaticano II tem expressões belíssimas[8] que nos ajudam a compreender a arte sacra em geral e, especialmente, a iconografia (pp. 71-76).

Notas:
[1] Uspenskij significa “da Dormição da Bem-aventurada Virgem Maria” (festejada aos 15/08). Mosteiro situado à Via della Pisana 342, 00163 Roma (Itália).
[2] São João Damasceno, Primeiro Tratado em defesa dos santos ícones. PG 94, cols. 1239-1240a.
[3] M. Alpatov, Drevnerusskaja ikonopis (em russo = Antiga inconografia russa). Introduçâo em russo e em inglês, p. 6.
[4] P. Evdokimov, La connaíssance de Dieu dans la tradition iconographique, in Unité Chrétienne, nn. 46-47, Lyon, 1977, p. 60.
[5] Na Introdução do álbum atrás citado.
[6] T. Spidlik, La spiritualité de l’Orient Chrétien, Roma, 1978, p. 301.
[7] Cf. Dz. nº 984: “Ordena o Concílio a todos os bispos (…) que ensinem aos fiéis o correto uso de imagens, fazendo-os saber (…) Sobretudo as imagens de Cristo etc. (…) devem ser colocadas e mantidas nas igrejas, recebendo a honra e a veneração que lhes é devida, não que se julgue que são depositárias de alguma força ou participação da divindade, que justificaria seu culto (…) mas porque a honra que lhes é prestada refere-se às pessoas que representam (…) Foi decreto precípuo do Segundo Concílio de Nicéia, contra os adversários das imagens”.
[8] Por exemplo, as Constituições sobre a Liturgia, Sacrosanctum Concilium, nn. 122-129, e Sobre a Igreja no Mundo, Gaudium et Spes, n. 62.
Extraído de:Pergunte e Responderemos 456 – pp. 219-225

Fonte

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