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Obras da Patrística

Epístola a Diogneto

Pequena jóia da literatura cristã, tanto pela profundidade espiritual do conteúdo, como pela beleza estilística e retórica da forma, mas também pela modernidade e pela atualidade de muitos temas discutidos e em particular pela dimensão política da vida cristã.

Giovanni Reale – Dario Antiseri
História da Filosofia: Patrística e Escolástica

A Epístola a Diogneto foi um dos primeiros tratados apológéticos escritos pelos Cristãos, figurando entre os melhores. Foi endereçada a um tal Diogneto (um título honorífico à época do Império Romano, e por isso imagina-se que se destinava ao Imperador) no final do século II, redigida em Atenas. Já Giovanni Reale fez seu comentário. Vejamos a própria epístola:

1. A identidade dos cristãos: vivem neste mundo, cidadãos de um outro

Os cristãos, com efeito, não se diferenciam dos outros homens nem pelo território nem pela língua ou costumes. Não habitam em cidades próprias nem falam uma linguagem inusitada; a vida que levam nada tem de estranho. Sua doutrina não é fruto de considerações e elucubrações de pessoas curiosas, nem se apresentam como promotores, como alguns, de alguma teoria humana. Habitando nas cidades gregas e bárbaras, como coube a cada um, e conformando-se com os costumes locais no que se refere ao vestuário, à alimentação e ao resto da vida cotidiana, demonstram o caráter admirável e extraordinário, no dizer de todos, de seu sistema de vida. Habitam na própria pátria, mas como estrangeiros, participam de tudo como cidadãos, e tudo suportam como forasteiros, qualquer terra estrangeira é sua pátria e qualquer pátria é terra estrangeira.

Casam-se como todos, geram filhos, mas não expõem os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, mas não o leito. Estão na carne, mas não vivem segundo a carne. Moram sobre a terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas, e com sua vida superam as leis. Amam a todos e são perseguidos por todos. Não são conhecidos, e assim mesmo são condenados; são mortos, e todavia são vivificados. São pobres e enriquecem a muitos; são carentes de tudo e têm abundância de tudo. São desprezados, mas no desprezo adquirem glória; são xingados e ao mesmo tempo se dá testemunha de sua justiça. São ultrajados e bendizem; são insultados e, ao contrário, honram. Embora realizem o bem, são punidos como malfeitores; embora punidos, se alegram, como se recebessem a vida.

São combatidos pelos judeus como estrangeiros e são perseguidos pelos gregos, mas quem os odeia não sabe explicar o motivo da própria aversão em relação a eles.

Enfim, para dizer brevemente, os cristãos desenvolvem no mundo a mesma função da alma no corpo. A alma está espalhada em todos os membros do corpo; também os cristãos estão espalhados pelas cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não pertence ao corpo; também os cristãos habitam no mundo, mas não pertencem ao mundo. A alma invisível está aprisionada no corpo visível; os cristãos, estando no mundo, são visíveis, mas o culto que dirigem a Deus permanece invisível. A carne odeia a alma e a combate, embora sem receber nenhuma injustiça, porque a impede de abandonar-se aos prazeres; também os cristãos são odiados pelo mundo, embora não lhe façam nenhum mal, porque se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam, assim como os cristãos amam quem os odeia. A alma, que também sustenta o corpo, está presa neste; também os cristãos, embora sejam o apoio do mundo, são aprisionados neste como em um cárcere. A alma imortal habita em uma moradia mortal; também os cristãos vivem como estrangeiros entre aquilo que é corruptível, enquanto esperam a incorruptibilidade celeste. Com as mortificações no comer e no beber, a alma se torna melhor; os cristãos, embora perseguidos, a cada dia se tornam mais numerosos.

Deus lhes reservou um lugar tão sublime, e a eles não é lícito abandoná-lo

2. O cristianismo e o desígnio transcendente da salvação

Com efeito, conforme disse, não é uma invenção terrena o que lhes foi transmitido, nem afirmam guardar com tanto cuidado uma doutrina passageira, nem lhes foi confiado o encargo de dispensar mistérios humanos. Mas aquele que é verdadeiramente onipotente, criador de tudo, Deus invisível, dos céus pôs entre os homens e estabeleceu em sues corações a Verdade, o Verbo santo e incompreensível; não enviou aos homens, como alguém poderia imaginar, um servo, um anjo, um arconte ou um dos seres a quem fosse confiado o governo da terra ou a administração nos céus, mas o próprio artífice e autor de tudo. Por meio dele criou os céus, encerrou o mar em seus próprios confins; seus mistérios são fielmente guardados por todos os elementos. É ele que faz o sol observar as leis que regulam seu curso cotidiano, sua ordem de brilhar durante a noite é obedecida pela lua e a ele obedecem os astros que seguem o curso da lua; ordenou e dispôs tudo, e a ele estão submetidas todas as coisas: os céus e tudo o que neles há, a terra e tudo o que ela contém, o mar e aquilo que nele existe, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, nas profundezas e no meio. Este é aquele que foi enviado aos homens.

Talvez, poderia alguém pensar, para mandar, amedrontar, aterrar? De modo nenhum. Ao contrário, foi enviado na humildade e bondade, como um rei manda seu filho rei, foi enviado como Deus, como homem entre os homens, para salvar com a persuasão, não para dominar, pois a violência não se coaduna com Deus. [Deus] o enviou para chamar, não para acusar; para amar, não para julgar, e quem poderá agüentar sua vinda? […] [Não vês que os cristãos] são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e todavia não se deixam vencer? Não vês que quanto mais são perseguidos, tanto mais crescem em número? Isto não parece obra humana, isto é poder de Deus; esta é uma prova da sua presença.

Com efeito, quem entre os homens conhecia plenamente a essência de Deus, antes da sua vinda?

Crês talvez nos discursos vazios e insossos daqueles filósofos considerados dignos de fé? Alguns destes diziam que Deus é fogo: chamam Deus aquilo em que irão acabar; outros o identificavam com a água, outros com algum outro elemento criado por Deus. Certamente, se for aceito algum destes raciocínios, qualquer outro ser criado poderia igualmente ser identificado com Deus. Mas estas são fofocas e imposturas de charlatães; nenhum homem viu ou conheceu Deus, mas ele próprio se revelou. Revelou-se por meio da fé, e apenas com ela é possível ver Deus.

Ele, com efeito, senhor e criador de tudo, autor e ordenador de todas as coisas, mostrou para com os homens não só amor, mas também paciência.

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