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Obras da Patrística

O Humor dos Santos

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Após registrar as doutrinas morbidamente delirantes dos gnósticos, Santo Irineu de Lyon pára esse registro e faz, ele mesmo, sua contribuição a elas. Esta contribuição está na sua obra admirável, Contra os Hereges. Note a ironia:

“1. Vejamos agora as inconstantes doutrinas deles. São duas ou três, e como falam de forma diferente sobre as mesmas coisas e, servindo-se de nomes iguais, indicam objetos diferentes. Valentim é o primeiro a adaptar as doutrinas tiradas da heresia gnóstica ao caráter próprio da sua escola que fixou assim: há uma Díada inefável, um dos elementos chama-se Inexprimível, o outro Silêncio. Esta Díada emitiu outra Díada, um elemento dela chama- se Pai e o outro Verdade. Esta Tétrada frutificou o Logos e a Vida, o Homem e a Igreja: eis então formada a primeira Ogdôada. Do Logos e da Vida emanaram dez Potências: uma delas se afastou, foi degradada e fez o restante da obra da fabricação. Valentim estabelece depois dois Limites, um entre o Pleroma e o Abismo que separa os Eões gerados do Pai ingênito e o outro que divide a sua Mãe do Pleroma. O Cristo não foi produzido pelos Eões que estão no Pleroma, mas pela Mãe que estava fora dele e se lembrava das realidades superiores, mas não sem alguma sombra. Sendo o Cristo masculino, tirou de si mesmo esta sombra e voltou para o Pleroma. A Mãe, então, deixada na sombra e esvaziada da substância pneumática, gerou outro filho, o Demiurgo, onipotente sobre todas as coisas submetidas a ele. E diz, de forma semelhante àquela dos que nós chamaremos gnósticos, que junto com ele, foi também gerado um Arconte da esquerda. Quanto a Jesus, ele o faz derivar ora do Eão que se separou da Mãe e se reuniu com os outros, isto é, Desejado; ora daquele que voltou ao Pleroma, isto é, Cristo; ora do Homem e da Igreja. Diz que o Espírito Santo foi emitido pela Verdade para julgar e fecundar os Eões, entrando invisivelmente neles e por seu meio os Eões produziram frutos de verdade. Isto é o que ensina Valentim.

2. Outro, chamado Secundo, ensina que a primeira Ogdôada abrange uma Tétrada da direita e uma da esquerda, uma é a Luz, outra as Trevas. A Potência que se afastou e foi degradada, diz que não deriva dos 30 Eões, mas de seus frutos.

3. Outro ilustre mestre deles, dotado de gnose mais sublime e profunda, expõe assim a primeira Tétrada: existe, antes de todas as coisas, um Pró-princípio pró- ininteligível, inexprimível e inominável que chamo Unicidade. Com ele está urna Potência que chamo Unidade. Estas, Unicidade e Unidade, que são urna coisa só, emitiram, sem emitir, um Princípio inteligível, ingênito e invisível, ao qual dou o nome de Mônada. Com esta Mônada está urna Potência da mesma substância, que chamo Um. Estas Potências, isto é, Unicidade e Unidade, Mônada e Um emitiram os restantes Eões.

4. Ha! he! ah! ah! Valem estas exclamações trágicas diante desta audácia em inventar nomes e aplicá-los despudoradamente a esta mentirosa invenção. Com efeito, quando diz: Existe antes de todas as coisas um Pró- princípio pró-ininteligível que chamo Unicidade e com ele está urna Potência que chamo Unidade, mostra claramente que são ficção todas as palavras que pronunciou e que deu a estas ficções nomes que ninguém antes dele lhes deu. Se não tivesse esta ousadia, segundo ele, ainda hoje a verdade estaria sem nome. Por isso, nada impede que outro qualquer, ao tratar deste assunto, use estes nomes: Existe certo Pró-princípio soberano pró-esvaziado-de- inteligibilidade, pró-esvaziado-de -substância e Potência pró-pró-dotada-de-esfericidade, que chamo Abóbora. Junto com esta Abóbora coexiste uma Potência que chamo Super-vacuidade. A Abóbora e a Super- Vacuidade, sendo um só, emitiram sem emitir um Fruto visível de qualquer lugar, comestível e saboroso, ao qual dou o nome de Pepino. Junto com este Pepino existe uma Potência da mesma substância, que chamo Melão. Estas Potências, isto é, Abóbora e Super-vacuidade, Pepino e Melão emitiram a multidão restante dos Melões delirantes de Valentim. Com efeito, se é necessário ajustar a fala comum à primeira Tétrada e se cada um escolhe os nomes que quer, o que impede usar estes nomes muito mais inteligíveis, usuais e conhecidos de todos?”

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