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Obras da Patrística

A Encarnação do Verbo

Fonte

São Leão Magno, Papa, sec. V
Do Tomus ad Flavianum

Na encarnação do Verbo, a humildade foi acolhida pela majestade; a fraqueza, pela força; a mortalidade, pela eternidade. Para atender à dívida de nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível. Deste modo, bem condizente com nossa recuperação, o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, poderia morrer mediante uma das naturezas e não morrer pela outra[1].
Portanto, na íntegra e perfeita natureza de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, todo (Deus) no que lhe é próprio, todo (homem) no que é nosso. Referimo-nos ao que é nosso, ao que no início o Criador criou em nós e que assumiu para restaurá-lo[2].
Porque nem o mais leva vestígio se encontrou no Salvador daquilo que o Sedutor sugeriu e que o homem, enganado, admitiu. E, pelo fato de ter aceitado a comunhão com as fraquezas humanas, não quer isto dizer que se tenha tornado participante de nossos delitos. Assumiu a forma de escravo, sem a mancha do pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o abaixamento, pelo qual o invisível se mostrou visível e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de misericórdia, não uma falha do poder. Por conseguinte, aquele que, na forma de Deus, fez o homem, este mesmo fez-se homem, na forma de escravo[3].
Entrou, pois, neste mundo insignificante o Filho de Deus, descendo do trono celeste, sem se afastar da glória paterna, gerado por nova ordem, novo nascimento[4]. Nova ordem, porque, invisível em si, fez-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; vivo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo envolvendo na sombra a imensidão de sua majestade, tomou sobre si a forma de servo; o Deus impassível não rejeitou ser homem passível, e o imortal, submeter-se às leis da morte. Aquele que é verdadeiro Deus, ele mesmo é verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso; estão um para o outro, a humildade do homem e a grandeza da Divindade.
E do mesmo modo como Deus não muda pela comiseração (de se fazer um de nós), também o homem não é esmagado pela dignidade (de ter sua natureza unida a uma Pessoa divina). Cada uma das naturezas age, em comunhão com a outra, segundo o que lhe é próprio: o Verbo opera o que compete ao Verbo, e a carne realiza o que é da carne[5]. Um refulge com os milagres, a outra sucumbe aos maus tratos. E como o Verbo não se afasta da igualdade com a glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça. É um só o mesmo – há que se repetir muitas vezes – verdadeiramente Filho de Deus e verdadeiramente filho do homem. Deus, porque “no princípio era o Verbo, e o Verbo era junto de Deus, e o Verbo era Deus”; homem porque “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

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[1] Em Jesus, a grandeza da natureza divina uniu-se à pobreza da natureza humana. Em Nosso Senhor há uma só Pessoa divina, aquela do Filho eterno. Esse Filho sempre teve a natureza divina; sem deixar de ser Deus, assumiu, no entanto, a natureza humana igual à nossa. Na Encarnação, Deus se humanizou!
[2] Aqui São Leão insiste em dois pontos importantes: Jesus é Deus perfeito e homem perfeito; a natureza humana que Jesus assumiu não foi a nossa natureza quebrada, mas a natureza humana íntegra, como Deus sonhara antes do pecado do homem. Em outras palavras: Jesus nunca teve pecado e, por isso, é mais humano que nós, humanamente perfeito.
[3] A fraqueza humana que o Filho eterno assumiu na encarnação não é uma fraqueza moral, mas a fraqueza própria da nossa natureza como criatura, além de ter que sofrer as conseqüências, de viver e conviver num mundo e numa sociedade profundamente marcados pelo pecado e suas conseqüências: traição, inveja, dureza, descrença. Sendo santíssimo, Jesus sofreu tudo isso e com tudo isso teve que viver.
[4]: Há, aqui, um aspecto da encarnação que, geralmente, não se enfatiza: o Filho fez-se homem: sendo uma pessoa divina infinita, eterna e imutável, assumiu uma natureza humana miúda e finita, mutável e limitada como a nossa. No entanto, sua natureza divina, que é a mesma do Pai e do Espírito Santo, é infinita, imutável e eterna. Resultado: de um modo que jamais nós compreenderemos nem de longe, o Filho que, como homem estava no seio de Maria ou reclinado no presépio ou andando pela Galiléia ou morrendo na cruz, como Deus (na sua natureza humana) jamais deixou a Direita do Pai e preenche e sustenta o céu e a terra! É absolutamente impossível compreender este mistério, como também é absolutamente necessário afirmar e crer nesta misteriosa realidade. Nunca esqueçamos: Jesus é uma pessoa divina, com uma natureza verdadeiramente divina (a mesma do Pai e do Espírito Santo) e verdadeiramente humana (semelhante à nossa). Esta é a fé da Igreja, a nossa fé.
[5] Jesus é homem perfeito e Deus perfeito: na sua natureza divina, ele age como Deus, na sua natureza humana, ele age como homem. Podemos esquematizar assim: Quem age? Sempre a pessoa divina do Verbo, Filho de Deus. Como age? Quando faz o que é próprio de Deus, age na natureza divina; quando faz o que é próprio do homem, age na natureza humana. Por exemplo: na natureza divina sustenta o céu e a terra; na natureza humana tem sede e se sente cansado

Notas do Padre Henrique Soares da Costa

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